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Trechos do meu romance
Atenção: o texto está incompleto!
Livro I
A maior parte das alegrias não passa de angústias disfarçadas.
A dor de hoje será amanhã a tua alegria; nada existe que escape à transfiguração.
Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem
Cornélia – Há de o tempo desvendar o que hoje esconde a discreta hipocrisia.
Shakespeare, O Rei Lear, AtoI
Capítulo um
O St. Banks era um dos melhores orfanatos de Londres, famoso pela educação que oferecia e pelo controle que mantinha sobre suas crianças. Exceto, porém, quanto a uma; um jovem rapazinho de quinze anos, redondo feito uma bolinha de golfe. Chamava-se Colin. Ele era o terror das freiras do convento, aprontava todo o tipo de coisa que se pode imaginar: desde entupir as privadas com toalhas higiênicas, até colocar cola nas cadeiras dos professores e contaminar a comida da escola. No St. Banks, é claro, havia uma diretora, mas quem mandava ali era Colin. Nada o controlava, e nada temia... bom, havia uma exceção especial, que se tornava a salvação das freiras na maioria das vezes: um rapaz alto, rechonchudo, chamado Godofredo, o único a quem Colin temia e respeitava. Quando a coisa estava preta, era a ele que as irmãs recorriam. Este, contudo, não era o valentão que aterrorizava a escola (papel reservado exclusivamente ao nosso protagonista). Pelo contrário; muito temido, passava as horas vagas trancado no dormitório, a ler. Era um mistério para todos a influência que o obtuso Godofredo exercia sobre Colin. Como ambos dividiam o mesmo dormitório, boatos e controvérsias sobre ambos não faltavam: - Aquele Godofredo, eu, heim? Ele não me engana. Quem sabe o que ele faz com aquele garoto, naquele quarto... – disse a paranóica Parvati, no refeitório. Mas Colin, na verdade, não era o moleque travesso por mero prazer na desgraça alheia. O que ele era, na verdade, era um garoto extremamente infeliz, e sentia necessidade de descontar em tudo e em todos a falta de sorte que a vida lhe reservara. Crescera vendo o pai alcoólatra espancar a mãe, para depois perdê-los num acidente de avião. Desde então, Colin vem vivendo no orfanato, sem nenhuma notícia de qualquer parente vivo. Com o tempo, porém, Colin foi ficando cada vez mais recluso e quieto, o que era motivo de espanto para todos, mas não podiam deixar de se sentir agradecidos. Esta história se passa na época da guerra, uma época marcada por tristezas e separações. As pessoas estavam tristes até nos momentos que consideravam os mais felizes. Muitas delas se encontravam distantes de parentes e amigos queridos, muitos dos quais estavam mortos. Para eles, não havia como pensar no amanhã; o fim do mundo e dos tempos era de consolidação inevitável. Mas um fato fundamental mudaria para sempre a vida de Colin. Era uma manhã de segunda-feira, e assistiam a uma aula de História. Todos os alunos se achavam com dificuldades para prestar atenção, mas não apenas pelo fato de a aula ser chata. Eles sentiam que o misterioso bolo de carne da segunda ainda não havia sido digerido, e que ele permaneceria pesado, em seus estômagos, por um longo tempo. O professor Severo, alienado como sempre, parecia não perceber o desinteresse dos alunos, e continuava a aula naquela sua fala lúgubre e monótona de sempre. - ... E assim, com a queda do Império Romano, iniciou-se a Idade Média, a Idade das trevas, mas alguém sabe o significado desta expressão? – perguntou, como por simples obrigação. – Hum?! – Ninguém respondeu nada. – Como eu esperava! A expressão “Idade das Trevas” surgiu na Era Moderna, quer dizer... A voz dele fazia-se distante para todos. Colin, como sempre, independente de estar com indigestão ou não, fazia algo bobo, como ficar rabiscando figuras na carteira. Nesse instante, a irmã Marta adentrou cautelosamente a sala, cortando a fala do professor. Seguiu-se um instante de silêncio. Então, ela falou: desculpe, professor, mas preciso que o Sr. Colin me acompanhe urgentemente até a sala da irmã Maria. A freira acompanhou-o silenciosamente pelo corredor atapetado, que sufocava os passos de ambos. Pararam diante de uma porta escura, a qual a irmã abriu. - Entre. Colin entrou e sentou-se diante da mesa da madre superiora. A irmã Maria, com suas várias rugas espalhadas pela face, feito uma teia de rios sobre uma montanha de carne flácida, olhou-o com uma expressão robótica. Em seguida, tentou forçar um sorriso, mas parecia tão desacostumada a fazer aquilo que acabou fazendo uma careta. - Muito bem, Sr. Colin – ela disse. – Chamei-o porque tenho uma ótima notícia. Colin esperou. - Parece que, finalmente, encontramos alguém que saiba sobre o seu passado. Um velho senhor de Newcastle diz ter sido vizinho da sua família e, segundo ele, seus pais tinham uns parentes distantes no Brasil, os quais costumavam visitar nas férias. Nós lhes enviamos uma carta, a partir do endereço que o homem de Newcastle nos forneceu, e... – ela remexeu nos papeis sobre a mesa – o senhor Arqui... Arquibaldo aceitou ficar com a sua guarda... Aquilo surpreendeu Colin. Será que, depois de todos aqueles anos, ele finalmente deixaria o orfanato? - Perguntamos também pelo seu nome completo – disse a irmã Maria. – Parece que seu nome é Colin M. Keynes. Isso lhe diz algo? Fá-lo lembrar de algo? O garoto abaixou a cabeça. Desde que viera morar naquele lugar, todos ali achavam que ele não possuía nenhuma lembrança do seu passado. Porque, quando o nosso passado é muito ruim, a única coisa que queremos realmente e esquecê-lo, e nos esforçamos ao máximo para isso. - E quando eles virão me buscar? – Colin perguntou, após um instante de silêncio. -Oh,não. Não – disse a irmã Maria. – Ele não pretende vir buscá-lo... Colin olhou-a. - ... Você irá para o Brasil. No final deste mês. - Mas como, não posso... - Arrumaremos alguém que o acompanhe na viagem, e que lhe ensine um pouco de português. Mas suponho que, se os seus pais costumavam visitar o Sr. Arquibaldo, creio que ele conheça o Inglês... Nesse instante, um forte som de sirene rompeu pela escada, acompanhado pelo alarido de antenas de alunos em pânico. Colin pôs-se bruscamente de pé. - Não se preocupe-disse a irmã Maria,a fala totalmente inexpressiva. – É só treinamento. Por causa da guerra, o St. Banks equipara-se com um abrigo antibomba, e um alarme que avisava sobre qualquer sinal de ataque aéreo. O menino voltou a se sentar. - Como já disse – prosseguiu a madre -, você viaja no final deste mês. O seu tio vive em São Paulo. Você se dará bem lá. Ele ao que parece mora sozinho, e você “terá a liberdade que sempre quis”. Por um segundo, Colin fitou-a. Então, entendeu o que ela quisera dizer.
Capítulo II
Após a forte tempestade que aterrorizara a noite, as ruas de Berlim amanheceram cobertas por uma névoa úmida que ofuscava o sol. Kumari sentou-se diante da janela de seu quarto e deteve o olhar num ponto da calçada. Delineando-se em meio à névoa, via-se a figura fantasmagórica de um homem parado em frente à casa. Usava um sobretudo negro e um chapéu de modo a lhe ocultar o rosto. Aquele era o terceiro dia que a cena se repetia... De início, Kumari não dera muita importância, mas, agora, encontrava-se decididamente preocupado. O que um homem como aquele poderia querer ali? O que procuraria? (Os pais de Kumari eram Judeus, e viviam há dez anos em Berlim.) Quando jovem, seu pai saíra do interior do país e embarcara numa expedição com destino ao Amazonas. Conhecera lá uma jovem índia, chamada Iraci, com quem se casara. Mais tarde, nasceu o único filho do casal, Kumari.) O garoto permaneceu um longo tempo olhando através da bruma, que girava numa lenta espiral em torno da casa. O homem continuava lá; ora mudava de lugar, indo para o outro lado da rua, mas sempre mantendo a casa dos Joyce no seu raio de visão. De súbito, o garoto estremeceu tomado por um sentimento ruim, e rezou para que estivesse enganado…
Sob o tapete da sala de estar, havia um antigo alçapão que se abria para um cômodo escondido embaixo da casa. Ali, Kumari costumava refugiar-se quando se sentia sozinho ou com medo. Certa tarde, vários homens de uniforme militar chegaram à casa dos Joyce: - Herman Joyce, abra a porta! Herman não abriu, e os homens arrombaram a porta. Sem dizer nada, levaram todos que estavam na casa. Kumari só não foi pego porque se achava escondido no porão. Com o ouvido colado ao alçapão, ele escutou os agentes dizerem: “O menino! Onde está o menino”? Não houve resposta, e seguiu-se um grito agourento, como se alguém estivesse sendo torturado. Em seguida, houve silêncio. Kumari permaneceu ali durante um longo período, esperando ouvir algo mais. Mas não ouviu mais nada. Então, levantou cuidadosamente o alçapão saiu. A porta da rua estava aberta, e havia marcas de sangue no limiar. Algumas cadeiras da sala se achavam tombadas pelo chão. Sentando-se encolhido no sofá, Kumari chorou. Sabia que aquilo acabaria acontecendo, sempre soube o que aquele homem queria! E ele era o culpado, culpado por não ter avisado os pais! Talvez, se o tivesse feito, eles poderiam ter fugido, e aquilo não teria acontecido.Agora ele estava sozinho e o merecia!… Durante alguns dias, Kumari ficou morando sozinho na casa. Mas sabia que não poderia continuar ali. As palavras do agente ressoavam em sua mente: “O rapaz! Onde está o rapaz”? Eles também o queriam e, certamente, estavam à sua procura.Tinha certeza de que logo, logo, estariam ali novamente... Certa manhã, uma notícia no jornal chamou-lhe a atenção. Falava sobre um grupo de teatro que partira num navio, o RMS Encarnação, para encenar uma peça no Brasil. “... um dos maiores grupos teatrais da Alemanha, o Chamarela encenará “A Descoberta do Brasil”– Kumari pulou a parte seguinte – “... RMS Encarnação contornaria a costa Europeia, fazendo escala em Liverpool, Inglaterra. “Os atores que participarão da peça são Mat…” Parou, levantou o olhar, fixou o infinito, pensativo. Se ele conseguisse embarcar nesse navio... O Brasil seria o melhor lugar para ele recomeçar. Lá não havia a guerra, nem ninguém para persegui-lo. Lá,estava certo, seria feliz.
Na manhã seguinte, Kumari tornou a correr o olhar pelo jornal, e deteve-o num anúncio: “A companhia de teatro Chamarela precisa de atores que interpretem índios”. Kumari virou-se na direção do espelho frontal. Ele tinha cara de índio. Podia-se dizer que era um índio de fato. Se conseguisse o papel, não precisaria viajar como clandestino, e até teria, com o trabalho na peça como se sustentar durante algum tempo. (Na realidade, ele nunca havia atuado na vida, e, a despeito de não entender muito do assunto, era, com efeito, uma oportunidade o que tinha diante de si, e não poderia deixá-la escapar...) Terminando de comer, vestiu o sobretudo, levantando a lapela de modo a cobrir o pescoço, e ganhou a rua. Levando consigo o jornal, viu que a companhia se encontrava num hotel próximo ao porto. Na recepção uma moça de “tailleur” preto indicou-lhe um pequeno aposento que ficava na parte de trás do edifício. Lá dentro, um homem corpulento, de rosto muito vermelho e barba ruiva, recebia os atores para o teste. Ah, entre, ele disse numa voz roufenha. No peito, presa à camisa vermelha brilhante, havia uma plaqueta com o nome “Sr. Tchekov”. Sobre a mesa, diante dele, havia duas pilhas de dinheiro. A primeira quase três vezes o tamanho da segunda. - Estava aqui contando o pagamento dos meus atores. Kumari olhou a pilha grande de dinheiro. Entusiasmado, não se segurou: nossa, o senhor paga muito bem à sua equipe! O homem soltou uma risadinha casual. - Oh, não, não! Esse não é o da equipe. Esse é o que separei para mim este mês. Já consegui tirar mais, mas estamos em época de crise, sabe... O garoto não disse nada, e mirou o pacotinho de notas que seria usado no pagamento do resto do grupo. Então, ficou imaginando o que daria mais lucro, se quando chegasse ao Brasil continuasse a trabalhar na companhia, ou passasse a pedir esmolas. O Sr. Tchekov mirou-o por um longo instante, o olhar perdido em pensamentos distantes. Então: - Suponho que tenha vindo por causa do anúncio. Você é exatamente o que eu estava procurando. Claro que precisarei de mais, mas você é perfeito... mas você é muito jovem, meu rapaz; o que o motiva a abandonar o seu país? Kumari não tinha previsto aquilo e não respondeu. Baixou a cabeça. Como não pensara que ele fosse perguntar aquilo antes? Como fora idiota! O rapaz arriscou um olhar de soslaio para o homem à sua frente, e notou que ele ainda o observava atentamente. O velho afinal suspirou, e disse: - Não precisa dizer nada, sei porque quer ir para o Brasil...
Escrito por guilherme.ibce às 14h04
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